A origem do mal

Deus criou o mal?

Se ele criou tudo e o mal existe, parece que criou o mal. Se não criou, parece que algo existe fora dele. A saída da tradição é mais antiga e mais estranha que as duas.

01. A armadilha da pergunta

A objeção é bem construída e vale reconhecer isso. Ela oferece duas portas, e as duas parecem levar ao mesmo lugar.

Se Deus criou tudo o que existe e o mal existe, então Deus criou o mal — e sua bondade cai. Se Deus não criou o mal, então algo existe sem ter sido criado por ele — e sua soberania cai.

A resposta cristã histórica não escolhe nenhuma das portas. Ela contesta uma palavra da pergunta: que o mal seja uma coisa que precise ser criada.

02. O mal não é substância

A formulação clássica, de Agostinho, é que o mal não é um ser, e sim a corrupção de um ser bom — ausência de um bem que deveria estar ali.

Isso não é jogo verbal, e a analogia ajuda: a cegueira é real, e ninguém precisou fabricá-la — ela é a falta de visão num olho feito para ver. A ferrugem não foi criada junto com o ferro; é o ferro se degradando.

Do mesmo modo, a crueldade não é uma substância nova; é amor, poder e vontade — coisas boas — voltados contra o fim para o qual existiam. Todo mal é parasita de algum bem.

03. O que essa resposta não significa

É aqui que a solução costuma ser mal usada, e vale bloquear o abuso.

  • Não significa que o mal é irreal. A cegueira é ausência de visão e cega de verdade.
  • Não significa que o mal é fraco ou pequeno.
  • Não significa que o sofrimento seja ilusão — essa é resposta de outras tradições, não da cristã.
  • Não significa que a vítima deva se consolar com metafísica. É explicação de origem, não palavra pastoral.

04. Como o texto bíblico apresenta a origem

A Escritura não faz metafísica; faz história. Tudo o que foi feito era muito bom — a avaliação vem antes de qualquer queda.

Depois, o homem é descrito como feito reto, tendo buscado muitas artimanhas por conta própria. E o Novo Testamento é explícito quanto ao ponto de partida da tentação: ninguém diga que é tentado por Deus, porque Deus não tenta ninguém — cada um é atraído pela própria concupiscência.

Ou seja: o texto localiza a origem na criatura, não no Criador, e recusa explicitamente a transferência da responsabilidade.

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.

Tiago 1.13 · ACF

05. E Isaías 45.7?

O texto que costuma aparecer nessa discussão diz que Deus forma a luz e cria as trevas, faz a paz e cria o mal. Vale tratá-lo de frente em vez de contorná-lo.

A palavra hebraica ali traduzida por mal é ampla e, no contexto — que fala de paz e guerra, prosperidade e ruína entre nações —, designa calamidade e juízo, não maldade moral. Várias traduções vertem por adversidade ou desgraça.

Isso é confirmado pelo restante da Escritura, que nega de modo direto que Deus peque ou tente. Um versículo não pode ser lido de forma a contradizer o que o livro inteiro afirma.

06. A pergunta que sobra

Mesmo aceitando tudo isso, resta o ponto duro: como uma criatura boa, num mundo bom, produziu a primeira inclinação má? Não havia corrupção prévia para explicá-la.

A tradição reformada não finge ter essa resposta. A confissão diz que nossos primeiros pais pecaram sendo tentados, e que Deus permitiu isso segundo o seu sábio e santo conselho, tendo se proposto ordená-lo para sua própria glória. Ela afirma o quê e o para quê — não o como.

É por isso que o pecado é chamado de mistério. Ele não é racional: se houvesse uma razão suficiente para o primeiro pecado, ele deixaria de ser pecado e viraria consequência lógica.

07. Onde a resposta descansa

Três afirmações ficam de pé sem se contradizerem. A criação era boa. O mal é real e é corrupção, não substância. Deus não é o autor do pecado, e ainda assim o governa para fins santos.

O que não fica de pé é o dualismo — a ideia de duas forças eternas equivalentes disputando o universo. No cristianismo o mal tem começo, tem limite e tem data de término marcada. Ele é intruso, não sócio.

Somente isto achei: que Deus fez ao homem reto, mas ele buscou muitas artimanhas.

Eclesiastes 7.29 · ACF

O que guardar

Fontes: Gênesis 1.31; 3.1-7; Eclesiastes 7.29; Isaías 45.7; Tiago 1.13-15; 1 João 1.5; 3.4; Ezequiel 28.15; Romanos 5.12; Confissão de Fé de Westminster IV.2, VI.1-4 (ACF).