A defesa mais popular

O livre-arbítrio explica todo o mal?

É a resposta mais usada — e a que a fé reformada aceita apenas em parte. Ela cobre menos do que promete.

01. O que a defesa afirma

O argumento é conhecido: Deus quis criaturas capazes de amar, e amor obrigado não é amor. Para haver escolha genuína, era preciso haver a possibilidade real de escolher o mal. O mal existe, então, como preço da liberdade.

Há verdade nisso, e a fé reformada não descarta. Ela afirma com força que as escolhas humanas são reais, voluntárias e responsáveis — ninguém peca sob coação.

02. Primeiro limite: não alcança o mal natural

Um terremoto não escolhe. Um câncer infantil não é o preço de ninguém ter podido decidir livremente.

Quem responde tudo com livre-arbítrio precisa, nesse ponto, ou atribuir cada desastre a demônios, ou dizer que a natureza escapou do controle de Deus. As duas saídas custam caro.

A resposta bíblica é outra: a criação inteira foi sujeita à vaidade e geme como quem está em dores de parto. O estrago da queda alcançou a matéria, não só a moral — e continua sob governo, não à solta.

A criação ficou sujeita à vaidade... e geme e está juntamente com dores de parto até agora.

Romanos 8.20,22 · ACF

03. Segundo limite: a quantidade

Mesmo no mal moral, a defesa explica que exista mal — não que exista tanto. Ela justificaria um mundo com alguma crueldade; não obviamente um com campos de extermínio.

Aqui quem só tem o livre-arbítrio como resposta fica sem argumento, porque a defesa é sobre a possibilidade do mal, e a objeção é sobre a escala dele.

04. Terceiro limite: o argumento se vira contra si

A pergunta que desmonta a defesa quando usada sozinha: Deus não poderia ter criado seres livres que sempre escolhessem o bem?

A resposta cristã é embaraçosa para quem defende a liberdade libertária, porque tal estado existe e é prometido. No céu não haverá pecado, e ninguém descreve os salvos como autômatos. Se liberdade exigisse a possibilidade permanente de pecar, a glória seria uma prisão.

Ou seja, a própria escatologia mostra que liberdade genuína e impecabilidade convivem. O que derruba a versão forte da defesa.

05. O que a liberdade é, no vocabulário bíblico

A confissão trabalha com quatro estados, e essa é a chave para não se perder.

  • Antes da queda: liberdade para o bem e possibilidade de cair.
  • Depois da queda: a vontade continua voluntária, mas escravizada — quem comete pecado é servo do pecado.
  • Na graça: libertada em parte, capaz de querer o bem, ainda em conflito.
  • Na glória: livre para o bem, sem possibilidade de pecar — o ponto mais alto da liberdade, não o mais baixo.
  • Em nenhum desses estados a vontade é neutra. Ela sempre escolhe conforme o que mais ama; liberdade é agir sem coação externa, não estar suspenso entre opções.

06. O que se perde ao usar só essa defesa

Ela costuma ser adotada por parecer proteger Deus. O custo é alto: se o mal existe apenas porque escapou às mãos dele, então nada garante que ele consiga acabar com o mal.

A resposta reformada é mais dura de aceitar e mais firme de segurar: o mal é real, a culpa é da criatura, e nada disso está fora do governo de Deus — o que é exatamente a base para prometer que aquilo terá fim.

José diz as duas coisas na mesma frase, sobre o mesmo ato: eles intentaram mal, Deus intentou para bem.

07. Como usar bem o que a defesa tem de verdadeiro

Não jogue fora. Ela é útil para responder à acusação de que Deus seria o autor da crueldade humana: quem mata escolheu matar, e a culpa é sua.

O erro está em transformá-la em explicação total. Ela é uma peça — e as outras peças são a queda que atingiu a criação, a providência que governa sem pecar, o mistério declarado e a promessa de fim.

O que guardar

Fontes: Gênesis 50.20; João 8.34; Romanos 6.16-20; 8.7-8, 20-22; 1 Coríntios 2.14; Efésios 2.1-3; Atos 2.23; Apocalipse 21.4; Confissão de Fé de Westminster IX.1-5 (ACF).