01. Quatro palavras antes de começar
Boa parte da confusão nessa pergunta vem de palavras usadas de formas diferentes. Vale fixar quatro.
Soberania: Deus governa tudo; nada está fora do conhecimento dele e nada o pega de surpresa. Bondade: Deus não é mau, não pratica injustiça e não tem prazer no pecado. Mal: tudo o que é contrário ao bem de Deus — pecado, violência, mentira, doença, morte. Pecado: pensar, desejar, falar ou agir contra a vontade de Deus.
Naquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.
Efésios 1.11 · ACF
02. A pergunta, formulada com precisão
A pergunta não é se Deus poderia impedir o mal. Se ele é soberano, poderia.
A pergunta é por que ele não impediu. E a resposta bíblica não é nenhuma das três saídas fáceis: não é que Deus não viu, não é que Deus não conseguiu, não é que Deus é indiferente.
A resposta bíblica é mais difícil de carregar: Deus permitiu a entrada do mal na história, continua governando tudo, e não é o autor moral do pecado.
03. Duas afirmações que ficam juntas
A Bíblia afirma duas coisas ao mesmo tempo, e a fé reformada se recusa a abandonar qualquer uma delas.
Primeira: Deus governa tudo. Nada acontece por sorte pura ou fora da providência. Segunda: Deus não é o autor do pecado — a culpa moral pertence à criatura que peca.
As duas juntas não são simples. Mas abandonar a primeira dá um Deus que perdeu o controle, e abandonar a segunda dá um Deus culpado. Nenhum dos dois é o Deus da Escritura.
Deus, desde toda a eternidade, ordenou tudo o que sucede; contudo, de tal maneira que Deus não é o autor do pecado.
Confissão de Westminster III.1
04. O que isso não significa
Não significa que Deus gosta do mal. Não significa que Deus seja cruel. Não significa que toda tragédia tenha uma explicação fácil. E não significa que quem sofre mais pecou mais.
Jesus rejeitou essa conta duas vezes: disse que a cegueira de nascença não veio de pecado do homem nem dos pais, e disse que as vítimas de uma tragédia em Jerusalém não eram mais culpadas do que os demais.
Nem este pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.
João 9.3 · ACF
05. O mundo está quebrado — e isso é mais amplo do que escolhas
A queda não afetou apenas decisões morais. Afetou o corpo, a mente, as relações, o nascimento, o envelhecimento e a própria natureza.
Por isso algumas dores vêm de pessoas fazendo o mal, e outras vêm de vivermos numa criação ferida. Um câncer não é a mesma coisa que um assassinato, e tratar as duas como o mesmo tipo de mal atrapalha a resposta.
- Mal moral: aquilo que criaturas escolhem e praticam.
- Mal natural: doença, desastre, deterioração — a criação sob a maldição.
- Nos dois casos, a providência de Deus não foi suspensa.
06. A cruz é o caso decisivo
O maior exemplo dessas duas verdades juntas é a morte de Jesus. A crucificação foi pecado humano real: homens maus agiram com maldade real e foram culpados por isso.
Ao mesmo tempo, a Bíblia diz que aquilo aconteceu segundo o determinado conselho e presciência de Deus.
Ou seja: Deus pode governar até um ato mau sem ser o pecador que o pratica. E o pior crime da história virou a salvação do seu povo. Isso não explica cada tragédia, mas mostra o que Deus é capaz de fazer com o mal.
A este, sendo entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós o tomastes e, por mãos injustas, o crucificastes e matastes.
Atos 2.23 · ACF
07. Onde a resposta para de avançar
Há um ponto em que a resposta honesta é: não sabemos o motivo específico desta tragédia.
A Escritura não dá uma explicação detalhada de cada caso, e a filosofia pode mostrar que crer em Deus não é irracional diante do mal — mas não retira a dor de uma mãe que perdeu um filho.
Romanos 8.28 não diz que tudo é bom. Diz que Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam. A diferença entre essas duas frases é enorme, e quase todo uso cruel desse versículo vem de confundi-las.