01. Duas histórias com o mesmo desenho
José e Moisés não começaram, aos olhos humanos, como libertadores. Aos dezessete anos, José foi exposto ao perigo pelo ódio dos irmãos; Moisés, ainda bebê, pelo ódio de Faraó, que mandou matar os meninos hebreus.
E, no momento mais sombrio, os dois foram colocados na corte egípcia — um como vice-regente, o outro como neto adotado. Caminho inesperado, nos dois casos, para o papel de salvador.
A analogia decisiva, no entanto, é outra: ambos foram lançados à proeminência egípcia por meio de ações pecaminosas de ódio humano — e a Escritura diz que Deus quis esse ódio.
Dito na forma mais curta: por meio do ódio dos irmãos, José se tornou libertador. Por meio do ódio dos egípcios, Moisés se tornou libertador.
02. A frase mais dura do salmo
No caso de José, isso já foi visto em Gênesis 45.7, 50.20 e Salmos 105.17. No caso de Moisés, o salmo é ainda mais direto: Deus multiplicou seu povo, o tornou mais forte que os opressores — e mudou o coração dos egípcios.
Duas frases, lado a lado, para não amenizar nenhuma. Sobre os irmãos de José: Deus o intentou para bem. Sobre os adversários no Egito: Deus mudou-lhes o coração para que odiassem o seu povo.
Virou o coração deles para que odiassem o seu povo, para que tratassem astutamente aos seus servos. Enviou Moisés, seu servo, e Arão, a quem escolhera.
Salmos 105.25-26 · ACF
03. O que o texto não especifica
Vale marcar o limite gramatical. O salmo não diz se Deus mudou o coração de outra emoção para o ódio, ou de outro objeto para que odiassem especificamente Israel. As duas leituras são possíveis.
Em ambas, o ensino é o mesmo: Deus governou o ódio pecaminoso dos egípcios, de modo que seu povo fosse odiado. A imprecisão está no como, não no que.
04. O que um israelita poderia dizer — e o que não
Colocando-se no lugar de quem sofreu aquilo, três frases são legítimas e três não são.
- Poderia dizer: por causa da suprema e decisiva providência de Deus, somos odiados pelos egípcios.
- Não poderia dizer: os egípcios eram inocentes.
- Não poderia dizer: Deus é pecaminoso ou cruel.
- Poderia dizer: estou legitimamente confuso sobre por que Deus planejou uma condição tão dolorosa para o seu povo.
- Não poderia: criticar Deus ou imputar-lhe motivos malévolos.
- Poderia dizer, com Paulo: em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados.
05. Um rei que disse isso no meio da coisa
José, Moisés e Ester são lidos de trás para frente: alguém reconhece a mão de Deus depois de ver o livramento. Há um caso em que o homem odiado diz isso enquanto as pedras ainda voam.
Davi saía de Jerusalém em lágrimas, fugindo da conspiração de Absalão, quando Simei, da casa de Saul, veio na encosta atirando pedras e maldições contra ele e contra os seus servos, chamando-o de homem de sangue.
Abisai pediu licença para matá-lo. Davi não permitiu, e a razão que deu não foi clemência nem cálculo político: era o Senhor quem havia mandado Simei amaldiçoar.
Ele não sabia como aquilo terminaria. Não tinha ainda a rebelião abafada, nem o retorno a Jerusalém, nem qualquer garantia de sobreviver ao dia. Mesmo assim leu a mão da providência no tratamento odioso que estava recebendo — e essa leitura o conteve em vez de o enfurecer.
Deixai-o; que amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou.
2 Samuel 16.11 · ACF
06. Simei continuou culpado do começo ao fim
A rebelião foi abafada e Davi voltou. No caminho de volta, Simei se prostrou diante do rei e chamou o que tinha feito pelo nome: perversidade, culpa, pecado. Pediu que não lhe fosse imputado.
Repare no que ele não pediu. Não alegou que a providência de Deus removia sua culpa, nem que o Senhor havia mandado e portanto ele estava cumprindo ordens. Pediu perdão por um pecado real, de um culpado real.
Aqui está a guarda que essa doutrina exige. Quando a providência de Deus realiza ódio ou maldição contra o seu povo, ela não transforma quem peca num autômato sem responsabilidade moral. Os egípcios não eram inocentes; Simei também não era — e foi ele mesmo quem disse isso primeiro.
Porque eu, teu servo, deveras confesso que pequei; por isso, sou o primeiro que, de toda a casa de José, desci a encontrar-me com o rei, meu senhor.
2 Samuel 19.20 · ACF
07. O silêncio de Lamentações
Há um caminho bíblico para esse tipo de dor que não é nem revolta nem explicação. Jeremias descreve alguém que se assenta solitário e fica em silêncio, porque foi Deus quem pôs aquele jugo — e mesmo ali diz que talvez ainda haja esperança, porque o Senhor não rejeitará para sempre.
É notável o que esse texto permite: silêncio, boca no pó, 'talvez'. Não exige entusiasmo nem certeza imediata.
Assentar-se-á solitário e ficará em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele. Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança... Porque o Senhor não rejeitará para sempre.
Lamentações 3.28-29,31 · ACF
08. Não exigir o mistério
A postura que a Escritura modela é precisa: não exigir que Deus revele como pode mudar um coração para me odiar sem que suas próprias mãos se tornem mãos de ódio.
E não presumir que ele seja um homem, com limitações humanas — Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. O que resta é o que Moisés disse: as coisas encobertas pertencem ao Senhor.
Isso é diferente de não fazer a pergunta. A pergunta é feita; o que não se faz é condicionar a confiança à resposta completa.
Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!
Romanos 11.33 · ACF
09. Por que essas histórias foram registradas
Há uma razão provável para a Escritura preservar exemplos de salvação que vêm justamente por meio de ódio contra o povo de Deus: precisamos de encorajamento grande, não pequeno.
O que esses relatos dizem é que circunstâncias dolorosas e pecaminosas não estão fora de controle, e que Deus governa a ascensão e a queda do ódio contra os seus. Mais que isso: ele governa as circunstâncias odiosas de tal modo que elas conduzem, com regularidade, a um livramento maior do que seria possível de outra forma.
Ester é o mesmo desenho outra vez: Mordecai elevado numa corte pagã, e o ódio de Hamã contra os judeus revertido em livramento para Israel.
10. O padrão chega ao seu clímax na cruz
O ódio contra Jesus é o ponto alto da série — 'não queremos que este reine sobre nós', 'o mundo me odeia', 'se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim'. Daquele ódio veio a crucificação. E, de forma surpreendente, dela veio a nossa salvação.
Salvação por meio de ser odiado e morto. E esse continua sendo o caminho cristão até o livramento final.
E odiados sereis de todos por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.
Mateus 10.22 · ACF
11. Romanos 8 diz isso a quem está sofrendo agora
Paulo encoraja crentes em sofrimento com a promessa de que Deus opera todas as coisas para o bem deles. E deixa explícito o que 'todas as coisas' inclui: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada — ou seja, as intenções odiosas por trás disso.
Ele vai ao ponto de admitir que somos entregues como ovelhas ao matadouro, e mesmo assim chama o resultado de mais que vitória.
Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou.
Romanos 8.37 · ACF
12. Para que serve saber disso
A lista de lugares onde essa verdade foi necessária é concreta: a prisão de José, o cesto de Moisés entre juncos infestados de crocodilos, o desprezo de Faraó, os cento e noventa e cinco golpes acumulados de Paulo, a cruz de Jesus.
Em cada um deles, saber que a providência totalmente sábia de Deus governa até o ódio dos perseguidores tem uma finalidade declarada: dar firmeza à fé e permitir suportar, em troca da alegria proposta adiante.
Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz.
Hebreus 12.2 · ACF
13. A palavra é providência, não explicação
Vale nomear com precisão o que segura alguém cercado por ódio. Não é a capacidade de explicar a providência de Deus. É o fato inabalável dela.
E esse fato sustenta na medida em que se crê que nada — absolutamente nada — pode acontecer senão vindo da mão paternal de Deus. A definição clássica dessa doutrina é justamente uma lista de coisas comuns: ervas e plantas, chuva e seca, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza. Nenhuma delas por acaso.
É por isso que a Escritura é abundante em histórias de providência e escassa em explicações de como ela opera.
A fé precisa da certeza do fato, não do mistério compreendido. São coisas diferentes, e confundi-las é adiar a consolação para um dia que não chega.
Ervas e plantas, chuva e seca, anos frutíferos e estéreis, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza — todas as coisas não nos vêm por acaso, mas de sua mão paternal.
Catecismo de Heidelberg 27
14. Como o salmo começa e termina
Vale ler o Salmo 105 inteiro, e não só o versículo 25. O que não passa pela cabeça do salmista é criticar Deus.
Ele abre convocando a dar graças, invocar o nome, narrar as maravilhas, e alegrar o coração de quem busca o Senhor. E fecha com o povo conduzido com alegria e jubiloso canto, tomando posse das terras — aleluia.
A frase mais dura do salmo está encaixada entre gratidão e louvor. Não como disfarce da dor, mas como moldura: quem escreveu aquilo sabia das duas coisas e não descartou nenhuma.