A objeção mais forte

O mal no mundo não é a prova de que Deus não existe?

É a objeção mais séria que existe. E, examinada até o fim, ela precisa de algo que só faz sentido se Deus existir.

01. Levar a objeção a sério

Um campo de extermínio, uma criança torturada, uma doença que consome alguém por dentro. Diante disso, dizer que existe um Deus bom e todo-poderoso soa a deboche. Essa é a objeção mais forte contra a fé cristã, e nenhuma resposta que comece minimizando o horror merece ser ouvida.

A Escritura não a evita. Os salmos perguntam por que os perversos prosperam; um profeta acusa Deus de ficar calado diante da violência; um justo arrasado exige explicação e não a recebe. A pergunta está dentro do livro, feita por gente que crê.

02. Duas versões da objeção

Vale separá-las, porque têm respostas diferentes.

A versão lógica afirma contradição: Deus bom, Deus poderoso e mal existente não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. Essa forma perdeu força na discussão filosófica, inclusive entre não cristãos — basta que exista uma razão possível, ainda que desconhecida, para Deus permitir o mal, e a contradição desaparece. Ninguém está em posição de afirmar que tal razão não existe.

A versão provável é mais honesta e mais difícil: mesmo sem contradição, tanto mal torna Deus improvável. Aqui não há refutação limpa — há um peso que se compara a outro peso.

03. A pergunta que a objeção deixa em aberto

Repare no que é preciso pressupor para acusar o mundo de ser mau. É preciso um padrão de como as coisas deveriam ser, que não seja apenas a sua preferência nem o costume do seu país.

Se não existe padrão acima das opiniões, a frase 'isso é uma monstruosidade' se reduz a 'eu não gosto disso' — e a acusação contra Deus perde a força junto. A objeção só tem peso enquanto o mal é mal de verdade, não apenas desagradável.

Não é prova de que Deus existe. É a constatação de que a arma mais forte contra a fé precisa de munição emprestada de algum lugar.

04. O que a fé cristã não diz

Vale limpar o terreno de coisas que se atribuem ao cristianismo e não estão nele.

  • Não diz que o mal é ilusão ou aparência.
  • Não diz que tudo o que acontece é bom.
  • Não diz que quem sofre mais pecou mais — Jesus recusou essa conta duas vezes.
  • Não diz que quem crê fica isento de tragédia.
  • Não diz que você vai entender.

05. A diferença que o cristianismo faz na pergunta

Outras respostas propõem que o mal é ilusão, ou que é justiça de vidas anteriores, ou que o universo simplesmente não se importa. A resposta cristã é a mais estranha das disponíveis: Deus não explicou o mal — entrou nele.

Diante do túmulo de um amigo, sabendo que o ressuscitaria em minutos, Jesus chorou. E o pior crime da história, a execução de um inocente, é apresentado como o meio da salvação de muitos.

Quem descarta Deus por causa do sofrimento fica sem o sofrimento resolvido e sem esperança de que ele acabe. A promessa cristã não é explicação; é fim: enxugará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte.

Jesus chorou.

João 11.35 · ACF

06. O que isso legitimamente conclui

Nada disso força ninguém a crer, e apresentar como se forçasse seria desonesto. O que se conclui é mais modesto e ainda relevante.

Primeiro: não há contradição demonstrada entre Deus e o mal. Segundo: a indignação moral que alimenta a objeção fica sem chão se não houver um padrão real. Terceiro: se Deus existe, o mal deixa de ser eterno — o que nenhuma alternativa oferece.

07. Quando não usar nada disto

Se a pessoa diante de você acabou de enterrar um filho, isto aqui não é o que se diz. Argumento no lugar errado é crueldade, mesmo quando o argumento é correto.

A ordem pastoral é outra: presença antes de explicação, escuta antes de resposta, e a admissão franca de que você também não entende. A objeção intelectual se responde em outro dia, se a pessoa quiser.

O que guardar

Fontes: Salmos 73.1-17; Habacuque 1.2-4, 13; Romanos 1.32; 2.14-15; Isaías 5.20; Lucas 13.1-5; João 11.33-35; Atos 2.23; Apocalipse 21.4; Confissão de Fé de Westminster V.4 (ACF).